Com o barro, Vitalino revelou a alma do seu povo
Por: Por José Neves Cabral“Ele arrancava as coisas da terra, sem impelir a ela suas figuras. Muito pelo contrário, ele sempre trazia as figuras da terra”, definiu certa vez o sociólogo Gilberto Freyre.
No ano do centenário do Mestre, a Prefeitura de Caruaru não é a única a homenageá-lo. A Fundação Joaquim Nabuco, presidida pelo também caruaruense Fernando Lyra, assinou recentemente com os herdeiros de Vitalino um contrato de cessão do uso da imagem do ceramista. Assim, o Museu do Homem do Nordeste vai editar um catálogo com as obras do artesão. A Fundação também prevê a edição de um livro infantil em quadrinhos contando a história de Vitalino.
“A nossa ligação com Vitalino vem do meu pai (João Lyra Filho), que foi prefeito de Caruaru (em 1959), época em que Abelardo Rodrigues implantou o Museu de Arte Popular, que mais tarde virou Museu do Barro. É uma satisfação para a Fundação Joaquim Nabuco receber esse acervo, para que a obra do Mestre Vitalino seja vista ainda mais pela população”, comentou Lyra.
No Alto do Moura, é difícil encontrar remanescentes da Era Vitalino. Contemporâneos dele, como Zé Caboclo, já se foram. Alguns, porém, ainda estão por lá, trabalhando, moldando o barro e orgulhando-se da arte que lhe proporcionou o sustento da família. Luiz Antônio da Silva é um deles. Aos 74 anos, criou os filhos com a habilidade das mãos e a criatividade de transformar o próprio cotidiano em imagens. Embora tenha recebido a influência do Mestre Vitalino, ele seguiu seu próprio estilo. Enquanto o Mestre transformava as imagens da vida rural em arte, ele procurou imprimir um tom mais urbano à sua obra. E esse tom mais urbano lhe abriu um novo mercado. Na década de 70, seu ateliê virou uma “fábrica” de fuscas.
Da argila colhida à margem do Rio Ipojuca, ele fez uma série de automóveis. Chegou a ser convidado para mostrar seu trabalho na Bahia, atendendo a um convite da Bahiatursa, empresa de turismo. Os baianos não se contentaram apenas em levá-lo para expor as peças na capital soteropolitana. Num convênio com o governo japonês, colocaram seu Luiz num avião e o conduziram numa excursão ao Japão, onde ele diz ter ensinado os nipônicos a fazer bonecos por 45 dias. Tudo isso nos anos 80. Os fuscas de seu Luiz também atraíram o interesse dos alemães da Volkswagem.
“Vendi a eles uns seiscentos fuscas”, comenta, lembrando que o negócio acabou não sendo tão rentável quanto esperava. “Na época, nos anos 80, a inflação era grande e nós acertamos o pagamento em parcelas. Com o tempo, o dinheiro foi perdendo o valor”, lamenta. Mas com o que ganha, Luiz garante que consegue manter a família. Construiu um ateliê muito bem estruturado. Uma de suas criações é a imagem do funcionário da companhia de eletricidade fazendo reparos em cima de um poste, cena da nova realidade urbana que a cidade assumiu a partir dos anos 60.
Na primeira fase de sua obra, Vitalino não assinava as peças. Com o decorrer dos anos, passou a registrar com lápis e tinta preta as iniciais V.P.S. na base das imagens que criava. Na década de 40, já eram encontradas peças marcando a sua autoria com um carimbo. Paralelamente ao trabalho artesanal, ele desenvolveu outro talento artístico, aprendendo a tocar pífano, uma espécie de flauta com sete furos e sem os claves. Sua banda tornou-se bastante conhecida em Caruaru e ele chegou a fazer apresentações no Rio de Janeiro, onde foi homenageado pelo governador Sette Câmara, em 1960, com a medalha Sílvio Romero pelo seu trabalho de divulgação do folclore nacional.
Por que Vitalino virou mestre
Vitalino não criou a comunidade de artesãos no Alto do Moura. Lá, eles já existiam. O que ele acrescentou à comunidade foi a sua arte de moldar figuras do cotidiano da argila, dando uma nova direção ao trabalho dos ceramistas que passaram a seguir aquele estilo. “Por isso, passou a ser chamado de mestre, por não se furtar a ensinar as técnicas para os demais artesãos da comunidade”, explica o pesquisador e museólogo da Fundação Joaquim Nabuco, Henrique Cruz. “Meu pai não se importava que os outros copiassem suas peças”, reforça o Severino.
Esse comportamento de Vitalino, que se sentia lisonjeado com as cópias, tornou a relação mestre/discípulos amistosa, onde todos procuravam se ajudar. “Ele nunca se negava a ensinar”, atesta Severino.
Henrique Cruz reforça ainda a questão do protagonismo de Vitalino ao ter sua arte reconhecida no Brasil e no Exterior. “Ele criou um estilo inconfundível. Hoje, um especialista em cerâmica é capaz de identificar uma peça feita no Alto do Moura em qualquer parte do mundo, há algumas características próprias ao trabalho desenvolvido pelos artesãos da comunidade”, explica.
No ano do seu centenário, Vitalino está sendo lembrado com várias homenagens. A Fenearte, no Centro de Convenções, criou um espaço para expor réplicas das criações do ceramista. A Escola de Samba Unidos da Tijuca usou a obra do caruaruense como tema de seu desfile no carnaval carioca.
Quarenta e seis anos após a morte do Mestre, o Alto do Moura transformou-se não apenas no maior centro de arte figurativa das Américas, mas também num grande polo gastronômico. Os visitantes não sobem a ladeira apenas para comprar bonecos, mas em busca das comidas típicas da região, principalmente o bode, as buchadas e a carne de sol. O Alto virou uma das principais atrações do Agreste.
As mãos de Vitalino
Rafael dos Santos Barros
De Vitalino,
as mãos eram mãos santas,
que modelaram em barro
os nordestinos
e transportaram a dor e os desatinos
para os bonecos, tantas vezes, tantas!
Bonecos mudos!
Quantas vezes, quantas?
minha alma cega, por meus olhos, viu
a tua dor meu coração sentiu
no canto triste que ainda hoje cantas.
Soprou-se a vida num boneco mudo,
que sem falar, assim, dizia tudo
dos nordestinos, dos destinos seus,
Advertência dos que nascem pobres
pelas mãos rudes que ficaram nobres,
abençoadas pelas mãos de Deus!
Homenagem da Casa da Poesia de Caruaru
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