4 de julho de 2009

MESTRE VITALINO

Noticia postada em 01.07.2009 - na Revista Algo Mais

Com o barro, Vitalino revelou a alma do seu povo

Por: Por José Neves Cabral
Uma quinta-feira nublada de junho. Fim de manhã no Alto do Moura. O clima agreste sopra um vento frio nos visitantes que sobem a ladeira para conhecer o maior Centro de Arte Figurativa das Américas. O local fica a sete quilômetros da área central da cidade. Nos ateliês, os bonecos feitos inspirados em personagens do cotidiano nordestino aguardam seus compradores. No endereço mais famoso do lugar, a casa onde morou Vitalino Pereira dos Santos, seu filho Severino recebe os visitantes, conta histórias do pai, falecido há 46 anos, vítima de varíola, e cujo centenário está sendo comemorado pela Prefeitura de Caruaru com o prolongamento das festas juninas até 10 de julho, data que marca o dia do nascimento do Mestre, cujas criações estão hoje expostas em várias partes do mundo, como o Louvre, em Paris.


A casa onde viveu Vitalino, construída em 1959, após a morte do ceramista (1963) foi tombada pela Prefeitura de Caruaru, em 1971. Seu acervo é composto por objetos pessoais, fotos e alguns móveis. Severino é o responsável pela casa e para isso recebe um salário da prefeitura.


Dono de um ateliê próximo à Casa Museu, Severino segue os passos do pai na arte de transformar o barro em cenas do cotidiano. Junto com ele, filhos, netos, bisnetos. À reportagem da Algomais, disse que a família toda se envolveu nessa arte, menos as duas irmãs, que não quiseram trabalhar. Os três filhos homens de Vitalino também seguiram no artesanato, sendo que um deles já faleceu. No ateliê de Severino, o bisneto Erich Guilherme, de três anos, brinca com o barro, tentando construir imagens.


No Alto do Moura, cerca de 500 pessoas ganham a vida trabalhando com a arte figurativa. A história que transformou Vitalino em mestre começou no Distrito de Ribeira dos Campos, próximo a Caruaru. O pai era agricultor e a mãe trabalhava com o barro, fazendo louças para vender na Feira de Caruaru.


O menino analfabeto brincava com os restos do barro que a mãe transformava em mercadorias de utilidade doméstica. Alguidares, jarros, pratos e potes, modelados e cozinhados num forno circular. E o lúdico falou mais alto do que o real. Das mãos de Vitalino surgiram bois, cabras, cavalos. A realidade em que vivia. A realidade em que vivia a comunidade. Na época, as crianças do interior, pobres, não tinham brinquedos mais sofisticados e aquelas criações do filho de Dona Josefa e Seu Marcelino, então com apenas 7 anos, caíram no gosto da meninada. O pai levava os produtos para a feira e negociava. Paralelamente, Vitalino também o ajudava na roça.
Sem saber, ingenuamente, ele estava dando o maior passo de sua vida, pois ao modelar os bonecos com as imagens do cotidiano fazia o registro da vida do homem do Agreste, das mãos calejadas da enxada e da pele curtida pelo sol, o que no futuro passaria a atrair o interesse de artistas plásticos e estudiosos da arte figurativa.


O cotidiano do artesão mudou quando ele, já adulto, conheceu o artista plástico e colecionador pernambucano Augusto Rodrigues. Por este foi aconselhado a mudar-se para o Alto do Moura, mais próximo à feira, com a mulher, Joana, e os filhos. Nesta fase, Vitalino já havia ampliado o leque de criações, a mais famosa delas era o gato maracajá em cima de uma árvore sendo acuado pelo caçador e o cachorro. O casal de noivos em cima de um cavalo, as bandas de pífanos, os bacamarteiros. Foram cerca de 130 criações, todas sob o tema da vida rural, o que atraía os turistas e visitantes à sua banca na Feira de Caruaru.

“Ele arrancava as coisas da terra, sem impelir a ela suas figuras. Muito pelo contrário, ele sempre trazia as figuras da terra”, definiu certa vez o sociólogo Gilberto Freyre.

No ano do centenário do Mestre, a Prefeitura de Caruaru não é a única a homenageá-lo. A Fundação Joaquim Nabuco, presidida pelo também caruaruense Fernando Lyra, assinou recentemente com os herdeiros de Vitalino um contrato de cessão do uso da imagem do ceramista. Assim, o Museu do Homem do Nordeste vai editar um catálogo com as obras do artesão. A Fundação também prevê a edição de um livro infantil em quadrinhos contando a história de Vitalino.

“A nossa ligação com Vitalino vem do meu pai (João Lyra Filho), que foi prefeito de Caruaru (em 1959), época em que Abelardo Rodrigues implantou o Museu de Arte Popular, que mais tarde virou Museu do Barro. É uma satisfação para a Fundação Joaquim Nabuco receber esse acervo, para que a obra do Mestre Vitalino seja vista ainda mais pela população”, comentou Lyra.

No Alto do Moura, é difícil encontrar remanescentes da Era Vitalino. Contemporâneos dele, como Zé Caboclo, já se foram. Alguns, porém, ainda estão por lá, trabalhando, moldando o barro e orgulhando-se da arte que lhe proporcionou o sustento da família. Luiz Antônio da Silva é um deles. Aos 74 anos, criou os filhos com a habilidade das mãos e a criatividade de transformar o próprio cotidiano em imagens. Embora tenha recebido a influência do Mestre Vitalino, ele seguiu seu próprio estilo. Enquanto o Mestre transformava as imagens da vida rural em arte, ele procurou imprimir um tom mais urbano à sua obra. E esse tom mais urbano lhe abriu um novo mercado. Na década de 70, seu ateliê virou uma “fábrica” de fuscas.

Da argila colhida à margem do Rio Ipojuca, ele fez uma série de automóveis. Chegou a ser convidado para mostrar seu trabalho na Bahia, atendendo a um convite da Bahiatursa, empresa de turismo. Os baianos não se contentaram apenas em levá-lo para expor as peças na capital soteropolitana. Num convênio com o governo japonês, colocaram seu Luiz num avião e o conduziram numa excursão ao Japão, onde ele diz ter ensinado os nipônicos a fazer bonecos por 45 dias. Tudo isso nos anos 80. Os fuscas de seu Luiz também atraíram o interesse dos alemães da Volkswagem.

“Vendi a eles uns seiscentos fuscas”, comenta, lembrando que o negócio acabou não sendo tão rentável quanto esperava. “Na época, nos anos 80, a inflação era grande e nós acertamos o pagamento em parcelas. Com o tempo, o dinheiro foi perdendo o valor”, lamenta. Mas com o que ganha, Luiz garante que consegue manter a família. Construiu um ateliê muito bem estruturado. Uma de suas criações é a imagem do funcionário da companhia de eletricidade fazendo reparos em cima de um poste, cena da nova realidade urbana que a cidade assumiu a partir dos anos 60.

Na primeira fase de sua obra, Vitalino não assinava as peças. Com o decorrer dos anos, passou a registrar com lápis e tinta preta as iniciais V.P.S. na base das imagens que criava. Na década de 40, já eram encontradas peças marcando a sua autoria com um carimbo. Paralelamente ao trabalho artesanal, ele desenvolveu outro talento artístico, aprendendo a tocar pífano, uma espécie de flauta com sete furos e sem os claves. Sua banda tornou-se bastante conhecida em Caruaru e ele chegou a fazer apresentações no Rio de Janeiro, onde foi homenageado pelo governador Sette Câmara, em 1960, com a medalha Sílvio Romero pelo seu trabalho de divulgação do folclore nacional.

Por que Vitalino virou mestre

Vitalino não criou a comunidade de artesãos no Alto do Moura. Lá, eles já existiam. O que ele acrescentou à comunidade foi a sua arte de moldar figuras do cotidiano da argila, dando uma nova direção ao trabalho dos ceramistas que passaram a seguir aquele estilo. “Por isso, passou a ser chamado de mestre, por não se furtar a ensinar as técnicas para os demais artesãos da comunidade”, explica o pesquisador e museólogo da Fundação Joaquim Nabuco, Henrique Cruz. “Meu pai não se importava que os outros copiassem suas peças”, reforça o Severino.

Esse comportamento de Vitalino, que se sentia lisonjeado com as cópias, tornou a relação mestre/discípulos amistosa, onde todos procuravam se ajudar. “Ele nunca se negava a ensinar”, atesta Severino.

Henrique Cruz reforça ainda a questão do protagonismo de Vitalino ao ter sua arte reconhecida no Brasil e no Exterior. “Ele criou um estilo inconfundível. Hoje, um especialista em cerâmica é capaz de identificar uma peça feita no Alto do Moura em qualquer parte do mundo, há algumas características próprias ao trabalho desenvolvido pelos artesãos da comunidade”, explica.

No ano do seu centenário, Vitalino está sendo lembrado com várias homenagens. A Fenearte, no Centro de Convenções, criou um espaço para expor réplicas das criações do ceramista. A Escola de Samba Unidos da Tijuca usou a obra do caruaruense como tema de seu desfile no carnaval carioca.

Quarenta e seis anos após a morte do Mestre, o Alto do Moura transformou-se não apenas no maior centro de arte figurativa das Américas, mas também num grande polo gastronômico. Os visitantes não sobem a ladeira apenas para comprar bonecos, mas em busca das comidas típicas da região, principalmente o bode, as buchadas e a carne de sol. O Alto virou uma das principais atrações do Agreste.

As mãos de Vitalino

Rafael dos Santos Barros
De Vitalino,
as mãos eram mãos santas,
que modelaram em barro
os nordestinos
e transportaram a dor e os desatinos
para os bonecos, tantas vezes, tantas!

Bonecos mudos!
Quantas vezes, quantas?
minha alma cega, por meus olhos, viu
a tua dor meu coração sentiu
no canto triste que ainda hoje cantas.

Soprou-se a vida num boneco mudo,
que sem falar, assim, dizia tudo
dos nordestinos, dos destinos seus,

Advertência dos que nascem pobres
pelas mãos rudes que ficaram nobres,
abençoadas pelas mãos de Deus!
Homenagem da Casa da Poesia de Caruaru

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